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O Que Nos Prende


O Que Nos Prende

Quando me pediram para escrever sobre o casamento fiquei um pouco assustada, ou não fosse eu ainda solteira... mas depois lembrei-me que, em regra, o casamento remete ao simbolismo de “laço amoroso”, e perdoem-me aqueles que discordam, mas lembrei-me  de uma raposa... quem não se lembra da raposa de “O Principezinho” de Saint-Exupéry? Passo a citar: “(...) foi então que apareceu a raposa (...) Laços? – Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser unico no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser unica no mundo (...) Se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de sol.”

E não é numa constante procura de “Sol” que a maioria de nós se envolve? Para mim o sentido das coisas não se limita apenas ao que elas são per si, mas ao laço que as liga, e é a um laço mais ou menos apertado que a maioria de nós acaba por se entregar, de corpo e alma como é devido ao Amor.

Isto porque, mais cedo ou mais tarde, cada um de nós assume o casamento como um objectivo. Para muitos é mesmo o objectivo central nas suas vidas, é como se a vida não fizesse sentido sem aquele laço. Ouço muitas vezes palavras que no seu âmago trazem agregada a ideia de um ciclo que passa por, nascer, crescer, casar, procriar e morrer, e embora muitas vezes não se preste atenção, o ciclo da vida acaba por passar exactamente por estes momentos que, no fundo, lhes conferem todo o sentido. Ninguém deseja viver sem o sentido que o outro lhe traz à vida, e o laço do casamento, mesmo que os amores felizes sejam raros, pressupõe a oportunidade de cada um tentar a sua sorte.

Este laço desfaz-se quando há confusão das relações e das responsabilidades. Caso contrário, a confiança no Amor e a responsabilidade para com  o outro revela que o casamento simboliza um laço que nem mesmo a morte consegue romper. E aqui não me refiro a qualquer espécie de “contrato nupcial”, mas sim às emoções inerentes a uma relação.

Reporto-me ao laço que nos prende ao outro e nos leva a assumir um compromisso emocional que nasce e se constrói dia-a-dia, e que precisa de ser alimentado diariamente, como se de uma flor se tratasse, essa mesma flor que nasce, cresce, nos prende a ela e nos faz acreditar que gostamos e somos gostados pelo que somos e pelo que nos liga um ao outro.

M.R.

Saint-Exupéry, A. (1987). O Principezinho. Traduçaõ de Joana Morais Varela. Caravela Eds.






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